O mercado imobiliário brasileiro opera em dois ritmos distintos em 2026. De um lado, o segmento popular segue aquecido, sustentado pelo Minha Casa Minha Vida e por uma demanda estrutural por moradia que ainda não foi atendida. De outro, o médio e alto padrão enfrenta a combinação de juros elevados, custos de construção em alta, em um contexto de pressão internacional sobre commodities e energia, e lançamentos em recuo em São Paulo. No aluguel, a pressão se intensifica: o FipeZap registrou a maior alta mensal em um ano em abril. No crédito, surgem movimentos relevantes. Após as quedas da Selic, o Santander ampliou o financiamento para até 90% do valor do imóvel. Mas efeitos mais intensos no financiamento imobiliário ainda devem demorar mais para se concretizarem.
Mercado de venda
Os lançamentos em São Paulo recuaram 5% no 1º trimestre de 2026, puxados pelo médio e alto padrão. O dado contrasta com o desempenho nacional: no acumulado de 12 meses até janeiro, os lançamentos subiram 19,3%, impulsionados pelo segmento popular. A leitura conjunta revela um mercado de duas velocidades — o MCMV sustenta o volume enquanto o segmento de maior renda aguarda condições de crédito mais favoráveis.
No preço, o FipeZap registrou alta de 0,51% em abril no m² residencial — abaixo da inflação do período, o que representa perda de valor real no curto prazo. Algumas capitais fora do eixo São Paulo–Rio de Janeiro têm apresentado valorização mais forte, reflexo da migração interna e da busca por mercados menos saturados. No segmento corporativo, a Setin projeta R$ 1,7 bilhão em VGV para 2026, apostando na combinação de compactos e alto padrão para diluir risco.
Mercado de aluguel
O aluguel registrou a maior alta mensal em um ano em abril: o índice FipeZap apontou avanço de 1,04% no mês, superando a inflação do período. Manaus, Campo Grande e Aracaju lideraram os aumentos entre as capitais. A aceleração reflete um mercado locatício aquecido por uma combinação de fatores: demanda crescente, oferta limitada e classe média que posterga a compra diante dos juros altos.
O IGP-M subiu 2,73% em abril, pressionando novamente reajustes de contratos de aluguel. A inadimplência subiu para 5,7% em abril após atingir mínima histórica em março, mas segue ainda abaixo de picos históricos. No mercado corporativo, escritórios em São Paulo registram alta acima da inflação, impulsionados pela retomada do trabalho presencial e híbrido.
Construtoras e incorporadoras
Os resultados do 1º trimestre confirmam o padrão que vem se desenhando no setor: lucros mantidos, mas pressionados pelo avanço dos custos de insumos. A MRV teve lucro ajustado de R$ 132,8 milhões, com margem bruta estável em 31% — sem espaço para crescer diante da pressão de materiais. A Cyrela fechou o trimestre com lucro de R$ 297 milhões e projeta inflação setorial perto de 8% no ano, mantendo aposta no segmento popular como amortecedor. A Mitre, historicamente focada em alta renda, prepara sua estreia no MCMV para 2027 como sócia passiva, com dois terrenos já comprados.
No alto padrão, a escassez de terrenos e os preços recordes em Balneário Camboriú continuam empurrando o mercado de luxo para cidades vizinhas como Piçarras e Penha. A CBIC revisou projeções diante da pressão de custos, em um contexto de pressão internacional sobre commodities e energia.
Crédito e habitação
O mercado de crédito imobiliário movimenta-se em várias frentes. O Santander passou a admitir financiamento de até 90% do valor do imóvel em operações selecionadas — reduzindo a entrada potencial para 10% —, numa sinalização de que os bancos buscam ampliar carteira mesmo em ambiente de juros elevados. O home equity, modalidade de crédito com garantia de imóvel, bateu recorde histórico: R$ 3,166 bilhões no 1º trimestre de 2026, alta de 25% na comparação anual, impulsionado por novas regras que permitiram o uso do mesmo imóvel em múltiplas operações.
O Banco Central cortou a Selic para 14,5% ao ano. As taxas dos bancos para crédito habitacional seguem em torno de 9% a 11% ao ano, mas a tendência de alívio deve se intensificar ao longo do segundo semestre. No programa Reforma Casa Brasil, modalidade do Minha Casa Minha Vida voltada para reforma habitacional, o Conselho Monetário Nacional aprovou redução de juros para 0,82% ao mês e ampliação do prazo para 72 meses.
Fonte: Portal Portas